terça-feira, 22 de dezembro de 2015

Jogos Vorazes: O Que A Telona Não Mostra

[ATENÇÃO] Esse texto é livre de spoilers de acontecimentos dos filmes e aborda temas que são visíveis apenas nos livros. Vamos começar pela dinâmica principal do Distrito 12. Katniss e Gale são afrodescendentes, de pele escura e provavelmente descendentes de indígenas devido aos cabelos escuros e lisos. Em contrapartida a mãe de Katniss e Primrose são claras, loiras de olho azul, pois a mãe não pertencia à costura como o pai, ela era filha de comerciantes, assim como Peeta que é loiro de olhos azuis. Gale desde o começo é a favor de uma revolução, porque é pobre, afrodescendente, arrimo de família, e sabe que se a situação não mudar ou se ele faltar, a família sofrerá da mesma maneira. Já para a família de Katniss onde a mãe e Prim são brancas e pela mãe ter o ofício de curar pessoas, elas estão em relativa vantagem. Tanto Katniss como Peeta sabem que suas famílias ocupam uma posição diferenciada no Distrito 12. A família de Peeta tem a padaria e outros dois filhos, ele não é necessário. A família de Katniss é frágil, mas tem Gale para protegê-las a pedido de Katniss. Outra questão muito interessante é a das tésseras.No primeiro livro é explicado que téssera é uma porção extra de grãos e óleos que uma criança maior de 12 anos pode requerer a cada começo de mês em troca de ter seu nome inscrito mais uma vez nos Jogos Vorazes, e isso é cumulativo. Ou seja, é uma forma de garantir que os escolhidos sejam sempre pobres, sejam sempre os miseráveis. Ainda na questão da fome, fica evidente no Distrito 12 que existe uma floresta que circunda o local com plantas e animais que poderiam ajudar a aliviar a fome, mas do qual a população é isolada com uma cerca teoricamente eletrificada. Aliás, qual a razão de uma cerca eletrificada? A população foi dizimada nos Dias Escuros e só restaram os distritos, sendo que o maior deles (Distrito 11 - Agricultura) deve ter próximo de 50.000 pessoas? São todas ferramentas de controlar as pessoas, de mantê-las na ingenuidade e na subnutrição para não se rebelarem contra algo que é visivelmente errado. Mas como a própria Katniss fala, praguejar contra a Capital não ajuda a colocar comida na mesa. Também tem os "Pacificadores", guardas enviados pela Capital para manter "A Ordem", na verdade, a ordem "natural" das coisas, o Status Quo, punir qualquer um que se rebele. O paralelo com as UPPs (Unidade de Polícia Pacificadora)? Pois é, também me ocorreu.

terça-feira, 1 de dezembro de 2015

Aleatório.

Não sou dessas meninas de unhas cuidadosamente compridas e batom vermelho. Que esbanjam charme e segurança. Não que não me disfarce de uma delas de vez em quando e vou pras noites da vida num salto alto, olhos delineados e sorrisos sedutores. (cuidadosamente ensaiados na frente do espelhos por dias a fio antes da noite em questão) Mas preciso ser rude, falar alto, expor apenas o lado mais rústico, frio. Talvez caiba aqui falar do Jardim Secreto, aquele lugar frio, escuro, abandonado que guarda as flores mais delicadas e os prazeres mais inocentes. Será que é pecado ler 200 vezes a mesma conversa procurando qualquer indício de que sim, aquela pessoa viu em mim alguém que valha a pena, alguém pra algo mais que uns minutos de entretenimento. Alguém que trate como coluna em vez de meme. Pra ir comigo na Casa das Rosas subir na varanda e olhar as flores de cima. A embaixada do meu mundo está aceitando turistas, mas que não reparem na bagunça que a reforma ainda vai longe. Tô querendo conhecer de perto um planeta diferente, menos egoísta e mais amor ao próximo, tô de mala pronta, passaporte na mão esperando só um visto. Ou melhor, visto e respondido. Porque só visualizado não dá mais.

segunda-feira, 30 de novembro de 2015

Çokorro

Contei por aqui que tinha um crush.
Depois de uns comentários desagradáveis descrushei.
Dancinha da Vitória!

Tudo lindo e maravilhoso...

OH WAIT!

Crushei de novo.

Um crush mais pesado.

Tão pesado que tô stalkeando fervorosamente e praticamente já posso escrever a biografia do fulano.

Só não pesquisei no Google.
(Mas sabe que a ideia é ótima?)

Resumo da ópera: eu devia estar estudando pra p3 ou descansando ou fazendo trabalho mas...

Tô aqui.
Porque não consigo dormir.
Tô ouvindo uma playlist vergonhosamente chamada de "♡".
E olhando pela vigésima sétima vez o perfil no Facebook do crush.

Mesmo sabendo que é furada.

Afinal minha fiel companheira de aventuras não aguenta mais me ouvir falar dele.

Resumindo: agora a vaca foi pro brejo!

Desejem sorte e foco pra mim nessa semana porque ó: tô precisando!

segunda-feira, 16 de novembro de 2015

Mais gentileza? Sim, obrigada!

"Não julgue um menino pela cara." Essa semana tive o prazer de ler um livro chamado "Extraordinário" da escritora Raquel Jaramillo Palacio. Mal consegui dormir enquanto estava lendo. O tipo da história que todos devíamos ler, para sermos pessoas melhores, enxergar os outros como verdadeiramente iguais. Em tempos de Tinder e outros aplicativos do estilo prateeleira de pessoas esse livro mostra os pensamentos mais pessoais de um menino que nunca foi aceito pelo mundo, nunca foi visto como um igual. É a história de um menino de 10 anos, August Pullman que irá começar a frequentar a escola. O motivo da entrada tardia na escola normal é que August é portador da Síndrome de Treacher-Collins, se submeteu a diversas cirurgias e até essa idade ele estudava em casa com os pais. Se posso dar um conselho é: leia o livro antes de procurar imagens no Google da síndrome. Essa condição causa alterações na face, na estrutura do crânio, faz com que o rosto dessas pessoas seja diferente do convencional. Infelizmente ao ter conhecimento dessa síndrome temos o péssimo hábito de reduzir a pessoa a aquela condição. E porque o livro é absurdamente fantástico? POrque é uma ode à gentileza. Porque conta a história de diferentes pontos de vista: de August e como ele se sente, do que ele se priva; Olivia a irmã mais velha de August que fica em segundo plano e se isola; dos amigos de August na escola, vários deles e como lidam com a diferença. Aliás Olivia é um exemplo de gentileza, carinho, alguém que protege o irmão, mas também tem conflitos, também não quer ser reduzida à condição do irmão. Por outro lado é uma história sobre uma criança de 10 anos que brinca, faz lição de casa, briga com os pais, é fã de Star Wars e quer fazer amigos. Também fala das dificuldades nos detalhes, da evolução da Síndrome, dos medos de coisas que aos outros parecem banais. É um livro absurdamente leve, divertido, gostoso de ler. Coisas tão pequenas como tomar um sorvete sobre uma perspectiva única. Leia o livro, se identifique um milhão de vezes com Auggie e depois veja imagens da Síndrome. Na verdade somos todos muito parecidos. E por favor, nunca, nunca, nunca olhe com espanto, grite, aponte, olhe duas vezes.

segunda-feira, 9 de novembro de 2015

Ralados no Joelho: Uma Analogia

Vc já ralou o joelho quando era criança? (espero que sim, uma infância sem joelhos ralados deve ser muito triste) Não aconteceu nada, certo? E depois ralou de novo no mesmo lugar? E depois de novo, e de novo, e de novo? De modo que nunca desse tempo de cicatrizar? Enquanto vc não limpar, cuidar, proteger e der um tempo ao corpo se recuperar aquele machucado não fecha. Bom, é isso o que acontece quando se é mulher numa faculdade machista e num curso machista², a ferida nunca fecha. *Sexta-feira de manhã, aula de Fabricação Mecânica: "As meninas que me desculpem, mas isso é um motor bom, potente, de macho." "Pra que serve a pintura em uma peça mecânica? Meninas, não venham me dizer que é pra deixar bonitinho." O mesmo professor falando sobre como ter na formação um curso técnico é importante e está para iniciar um discurso sobre o mesmo quando resolve perguntar se alguém na sala fez curso técnico, ao ver que a única pessoa a ter feito era a única menina presente muda bruscamente o assunto. *Sexta-feira à tarde, Laboratório de Eletricidade Geral: Grupo de laboratório composto por duas meninas e um menino, a tarefa era montar um circuito de maneira a acionar o motor elétrico através de um duplo triângulo, integrante masculino está sentado mexendo no celular enquanto integrantes femininas montam o circuito. O circuito não funciona, integrante masculino diz antes de sequer olhar para o que foi feito: "É óbvio que não funciona, vcs fazem tudo errado!" Integrante feminina pergunta onde está errado e como consertar, integrante masculino ignora as perguntas e volta a mexer no celular. Outros episódios: *Aluna está na oficina construindo um chassi para um trabalho em grupo, aluno do mesmo grupo passa todo o tempo sentado ao lado da aluna criticando os métodos da mesma sem sugerir alternativas, sem sua opinião ter sido solicitada e não produz absolutamente nada para o desenvolvimento do grupo. Apenas para situar melhor, tenho aula de quarta-feira somente no período da manhã, não estive presente na aula na quinta-feira e tive aulas nos períodos da manhã e da tarde na sexta-feira. Ou seja, não se passa um período de aula sem presenciar algo machista no curso de mecânica da Escola Politécnica da USP. Alguém pode me dizer o que fazer pra se proteger desse tipo de ralado no joelho?

segunda-feira, 12 de outubro de 2015

Quatro da Manhã

Todo mundo morre as quatro da manhã. E quem não morre tem vontade de morrer. Quatro horas é quando a balada tá acabando e as pessoas estão chatas e cansadas. É quando só existem dois tipos de pessoas: as que querem ir pra casa e as que nem sabem mais o que é isso. É quando a ressaca começa a bater, é quando se liga pra quem não deveria, é quando se faz o que não pretendia. Quatro horas é aquele momento de constatação da insônia, quando vc se conforma que não dormiu, não vai mais dormir e mesmo que dormisse não adiantaria pois logo é hora de levantar e enfrentar destruído um longo dia ruim. Quatro horas é quando bate o desespero dos momentos maravilhosos que não podem mais voltar. É quando se sente a falta dos amigos que partiram, dos familiares que não estão mais ali. É quando se necessita de um abraço mais que tudo nesse mundo, mais até que respirar, mas não se tem ninguém pra abraçar. Hora de enfrentar os desejos mais obscuros e prescrutar os sentimentos inconfessáveis. O momento exato em que vc se dá conta de cada mentira que tem vivido, é a hora que os sonhos não perseguidos vem assombrar. Também é hora das mais decididas resoluções, aquelas que provavelmente nunca serão postas em prática. Talvez as mais sinceras e mais necessárias. Quatro horas é o que poderia ter sido. Se tivesse feito, se dissesse o que pensava, se recusasse tomar parte. A melhor parte das quatro da manhã são as certezas. Se vc é feliz na sua profissão quando pensa nela nesse horário, então definitivamente vc é feliz. Se vc ama e confia em alguém às quatro da manhã, essa pessoa é pra sempre. Muitas pessoas evitam a filosofia da madrugada. Como alguém me disse uma vez "quem pensa muito, sofre muito". Mentira. Eu já pensei como esse alguém, antes de conhecer e travar amizade com meus monstros particulares. Atualmente nos cumprimentamos, jogamos cartas, contamos piadas e eles me ninam até dormir. Sei que a vida vale a pena porque não mudaria absolutamente nada nela, nem as quatro da manhã.

segunda-feira, 5 de outubro de 2015

...

Apertarem sua bunda na balada.
Sua mãe te chamar de depravada.
Mas mãe,  por que eu?
Se tudo que faço é com corpo meu?

Sua amiga te contar desgostosa
Que você a chamou de invejosa
Mas amiga,  eu jamais diria isso
Ficar se comparando é desperdício

E se eu gostar de jogar
Porque eu deveria me intimidar?
Porque meu gênero precisa ser escondido?
Porque o acesso não nos é permitido?

Mas tudo isso é besteira
E não deveria me importar tanto
Mulher,  não perde a estribeira
Se situa e volta pro teu canto

Foi um elogio,  não foi nada
Acham que eu não entendi direito
A explicação não é complicada
Minha inteligência merece respeito

"Deixa eu te interromper um pouquinho"
"Vou só complementar"
"Vou falar rapidinho"
Na verdade é só pra te calar

Somos todas irmãs
Não duvide do que digo
Porque nós,  todas as manhãs
Sabemos como é enfrentar o perigo